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MarxCard: Karl Marx vira cartão de crédito

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Não, não se trata de alguma piada com o velho Marx. O banco alemão Sparkasse Chemnitz promoveu, recentemente, um curioso concurso junto aos seus clientes para escolher a imagem que ilustrará o mais novo cartão de crédito da instituição. Dentre as imagens disponibilizadas para a votação online dos clientes, o banco germânico selecionou alguns dos monumentos significativos de sua cidade natal, Chemntiz. Entre os desenhos escolhidos, constava o famoso busto do filósofo revolucionário Karl Marx, construído pelo escultor russo Lev Kerbel.

Com 35% dos votos, o busto de bronze de Marx venceu a eleição. A vitória inusitada e o fato quixotesco renderam ao banco uma poderosa estratégia de marketing na captação de novos clientes. Inclusive, pessoas de outras regiões da Alemanha mostraram-se interessadas em adquirir o infame cartão. Ao que parece, comprar sob a insígnia do autor d’O Capital “não tem preço”.

 

A despeito do marketing, das intenções do banco e das ideologias políticas em jogo, o fato por si só é revelador do modo como o capitalismo contemporâneo relaciona-se com a crítica e seus críticos. O capitalismo, em si mesmo, enquanto processo de acumulação ilimitada não é nem moral ou imoral. Ele é amoral. À ele, ou melhor, aos agentes e instituições que o formam pouco importam as contradições, as ambiguidades morais, sentimentos de reverência ou respeito. Importa-os tão somente aquilo que pode gerar valor. Assim, tudo o que pode parecer valor e despertar desejos, seja vivo ou morto, sagrado ou profano, interessa ao capital como ornamento universal e ícone de adoração. Mas tão somente enquanto for capaz de produzir valor, dinheiro e lucro. Ao capitalismo, para alcançar seus os próprios interesses, tanto faz profanar ídolos, ícones, ideários que lhe foram, num passado não muito distante, implacavelmente seus opositores e críticos. É por isso que a locomotiva capitalista conhece muito poucos freios diante dos quais ela titubeia ou tergiversa.

O uso midiático e consumista da figura de Che Guevara é o exemplo mais contundente e banal da amoralidade do capitalismo. Com a fotografia de Che, a indústria cultural e a publicidade capitalistas estamparam todo tipo de mercadoria com o rosto do revolucionário argentino: de perfumes franceses à marcas de tênis, passando por bebidas, camisetas, bonés, etc.. Ironicamente, como todos sabem, o ícone das esquerdas se tornou também um ícone, ou melhor, uma marca das mais lucrativas do mundo comercial.

O próprio Marx, no Manifesto Comunista, observou acertadamente a plasticidade moral do capitalismo, que diante de seus objetivos de acumulação, não conhece obstáculos suficientemente sólidos nem motivos suficientemente sagrados para recuar: “Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profano…”.

Se podemos falar de alguma moralidade inerente ao capitalismo esta é, certamente, o cinismo com que dito sistema trata todos os ideários morais, culturais e políticos a ele exteriores, colocando-os, sem pudor algum, a seu serviço, isto é, ao processo de acumulação ilimitada.

O desolador e preocupante da situação não é a heresia do capital de transformar Marx num dos símbolos máximos do capitalismo. Mas sim de constatar que, nos dias atuais, as armas da crítica irreverente, debochada e iconoclasta estarem sendo empunhadas pelos agentes do capitalismo em vez de ser pelos movimentos sociais e intelectuais antiestablishment. Também no plano da crítica, no combate das ideias e representações, o capitalismo parece estar a frente da crítica anticapitalista.

Nesse sentido, o capitalismo neutraliza a crítica e os seus críticos não apenas com a violência de suas coerções e constrangimentos ou com a sedução de sua ideologia, mas, também, pela ironia que, por vezes, dispensa aos seus opositores. Afinal, os capitalistas de nossas avançadas sociedades consumistas bem sabem que o “crédito é o ópio do povo”.