A Hora dos Predadores e o desencantamento tecnológico do mundo

Pequeno em extensão, mas vasto em ambição, A Hora dos Predadores, de Giuliano da Empoli, é um livro que desconcerta pela sua estrutura fragmentada e pela densidade de seus curtos ensaios. Neles, o autor, intelectual ítalo-suíço conhecido por sua capacidade de articular literatura, política e filosofia, constrói um mosaico de observações sobre o mundo contemporâneo. A forma parece ecoar o conteúdo: breves textos que, como estilhaços, compõem um retrato inquietante da nossa era.

Cada fragmento do livro aborda um aspecto diferente, da manipulação da informação à financeirização da vida, da transformação da política em espetáculo à vigilância digital, mas todos convergem para um mesmo diagnóstico: o de um mundo em transformação acelerada, no qual as esperanças de emancipação parecem cada vez mais remotas.

Da Empoli, que em obras anteriores já explorara os bastidores do poder e a estética da política, parece, neste livro, radicalizar sua desconfiança diante das promessas modernas. Em A Hora dos Predadores, não há espaço para redenção. As elites, outrora associadas à posse dos meios de produção, agora dominam as novas ferramentas de controle simbólico e tecnológico. O poder não se exerce apenas sobre o corpo ou o território, mas sobre a percepção e o desejo. As tecnologias e os algoritmos que as comandam tornaram-se instrumentos sutis de dominação, moldando subjetividades com uma eficiência que faria inveja aos antigos tiranos. A violência, hoje, é silenciosa; a coerção, invisível; e a servidão, voluntária.

Nesse sentido, a leitura de Da Empoli convida a uma reflexão que ultrapassa o campo da política e alcança o coração da sociologia. O mundo que ele descreve é o daquilo que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”. Para Weber, a modernidade trouxe consigo a supremacia da racionalidade instrumental, aquela voltada aos meios, à eficiência e ao cálculo, em detrimento de uma racionalidade substantiva, capaz de orientar a ação por valores e significados.

O resultado foi um mundo mais previsível, mas também mais frio, mais desprovido de sentido. Em Da Empoli, esse processo atinge um novo estágio: o desencantamento não é apenas espiritual ou moral, mas tecnológico. A racionalidade dos algoritmos substitui a razão humana; a máquina se torna a nova instância de julgamento, e o cálculo, antes ferramenta, converte-se em crença.

A crise, portanto, não é apenas econômica ou política: é uma crise da própria racionalidade. As ferramentas criadas para ampliar a liberdade tornaram-se mecanismos de captura. A promessa iluminista de emancipação pela razão dissolve-se diante de uma razão que se volta contra si mesma, transmutada em técnica de dominação. Nesse cenário, o indivíduo já não é o sujeito autônomo do projeto moderno, mas o objeto de um sistema que o observa, o mede e o antecipa. Da Empoli parece sugerir que o verdadeiro predador contemporâneo não é o homem, mas a lógica racional-instrumental que, encarnada nas tecnologias, devora o próprio humano.

A Hora dos Predadores é, assim, mais do que uma crítica às elites ou ao capitalismo digital. É uma meditação sombria sobre o fim de um mundo. Não o fim físico, mas o fim simbólico de uma era em que se acreditava que o conhecimento e a técnica poderiam libertar. Resta, contudo, uma pergunta que o livro deixa em suspenso: seria possível reencantar o mundo? Talvez a resposta não venha das máquinas, mas da capacidade humana de devolver sentido àquilo que a racionalidade instrumental esvaziou. Entre a lucidez do diagnóstico e a urgência da resistência, o livro nos lembra que compreender o predador é o primeiro passo para escapar de sua armadilha.