Luiz Renato Vieira é sociólogo, doutor em sociologia da cultura.
Nos últimos anos, tem-se observado, no Brasil e em diversas partes do mundo, uma reconfiguração inquietante das forças políticas e culturais. Movimentos de caráter autoritário, de traço populista e retórica nacionalista, têm encontrado terreno fértil em sociedades atravessadas por crises econômicas, inseguranças sociais e transformações culturais aceleradas. Embora esses movimentos sejam historicamente instrumentos de preservação dos interesses das elites, sua força de mobilização provém, paradoxalmente, de setores intermediários e populares — sobretudo das camadas empobrecidas da classe média, que se veem ameaçadas na sua posição social e buscam refúgio em discursos de ordem, identidade e pertencimento.
Nesse cenário, a sociologia é convocada a interpretar e desnaturalizar essas dinâmicas, enfrentando o desafio de compreender como afetos políticos, ressentimentos e transformações culturais se entrelaçam de maneira inédita.
Essa dinâmica não é nova. Desde o surgimento dos regimes fascistas na Europa do século XX, o autoritarismo de massas tem se apresentado como uma falsa revolta contra as elites, quando na verdade atua para protegê-las e consolidar seus privilégios. O fascismo clássico foi alimentado por industriais, banqueiros e latifundiários, mas sustentado na rua por multidões mobilizadas por símbolos simples, palavras de ordem fortes e inimigos claramente definidos. Hoje, em um mundo globalizado e digitalizado, a lógica é semelhante, ainda que com novos instrumentos: redes sociais amplificam ressentimentos difusos, identidades nacionais são manipuladas como escudos ideológicos e discursos “anticorrupção” ou “anti-establishment” disfarçam projetos que, na prática, reforçam hierarquias e desigualdades estruturais.
No Brasil contemporâneo, esse processo se manifesta de forma especialmente visível no campo da cultura. A disputa simbólica — sobre o que é “a nação”, “o povo”, “a moral” ou “a tradição” — tornou-se uma arena central de conflito político. Produções artísticas, manifestações populares e políticas culturais passam a ser tratadas não como expressões legítimas da diversidade social, mas como territórios ideológicos a serem controlados ou silenciados.
O medo do diferente, a desconfiança frente à pluralidade e a nostalgia de um passado idealizado compõem a matéria-prima de narrativas que se pretendem defensoras da “verdadeira identidade nacional”. Nesse cenário, a cultura deixa de ser um espaço de criação e se torna um campo de batalha simbólica.
É precisamente aí que a relação entre fascismo e setores empobrecidos da classe média se torna clara. Em contextos de instabilidade, esses segmentos sociais experimentam um sentimento de deslocamento: não se identificam com as elites globais e cosmopolitas, mas tampouco com os grupos historicamente marginalizados que lutam por direitos.
Diante de transformações culturais e econômicas que ameaçam sua posição intermediária, esses grupos encontram no discurso autoritário uma promessa sedutora: a ideia de uma identidade homogênea, de fronteiras simbólicas claras, de um retorno à ordem e de um pertencimento seguro. É uma promessa ilusória — pois não oferece emancipação, mas submissão a um projeto de poder que, no fundo, os instrumentaliza.
Essa tendência não é isolada. Ela se insere num movimento internacional mais amplo, no qual forças autoritárias disputam a narrativa cultural como forma de legitimar projetos políticos excludentes. Seja na Europa, nos Estados Unidos ou na América Latina, o terreno simbólico tornou-se tão importante quanto o econômico. Grupos reacionários compreendem que a batalha pelo poder passa, antes de tudo, pelo controle das imaginações coletivas — pelo que as pessoas acreditam que são, pelo que temem perder e pelo que sonham recuperar. E é justamente na intersecção entre identidade e insegurança que o fascismo contemporâneo encontra seu espaço. Para a sociologia, interpretar esse fenômeno implica em lidar com uma realidade complexa, na qual fronteiras entre política, cultura, emoção e tecnologia se tornam cada vez mais fluidas e interdependentes.
No entanto, compreender essa lógica não é suficiente. É preciso enfrentá-la com lucidez. A cultura, em sua dimensão mais profunda, é um espaço de criação de sentidos, de convivência entre diferenças, de invenção de futuros comuns. Quando esse espaço é capturado por projetos autoritários, a democracia se enfraquece não apenas nas instituições, mas no tecido simbólico que a sustenta. Resistir a essas forças não significa apenas defender artistas, políticas públicas ou instituições culturais: significa disputar narrativas, criar novos vínculos sociais e recusar as simplificações sedutoras que prometem ordem em troca de liberdade.
Em tempos de crise, a tentação autoritária costuma vestir-se de populismo e falar em nome do povo. Mas é preciso lembrar: a voz que fala não é a do povo real, plural e complexo, e sim a de um projeto de poder que instrumentaliza essa imagem para proteger privilégios antigos sob novos disfarces. A cultura, por sua natureza, é incompatível com muros simbólicos. Ela floresce no encontro, não no isolamento. Reconhecer isso é fundamental para impedir que o ressentimento seja capturado por forças que, embora se apresentem como populares, trabalham para perpetuar a desigualdade e sufocar a imaginação coletiva.
A sociologia, como ferramenta crítica, tem aqui uma tarefa urgente: não apenas descrever os contornos desse fenômeno, mas revelar as engrenagens que o sustentam e apontar caminhos para reconstruir laços democráticos. A batalha política do nosso tempo é, também, e talvez sobretudo, uma batalha pelo sentido. E é nesse campo que se decide o futuro.