Giovanna Mantuano é socióloga (UFRN) e educadora.
Janja é um marco. Ela é símbolo de uma disputa maior sobre o futuro da política brasileira e não à toa: nesta terça-feira, 23, em sua última aparição pública, Rosângela Lula da Silva, dá o seu recado sem utilizar-se de uma única palavra: usa um keffiyeh e um casaco palestinos na abertura da assembleia geral da ONU. Longe de ser um simples adereço público do marido Lula, Janja inflama o espectro político. Da direita golpista à esquerda moralizadora, o discurso de ódio que a atravessa se dá de forma ambidestra, mas não é só porque ela é mulher. Por questões óbvias, o machismo é central, mas não explica tudo. Se assim fosse, todas as primeiras-damas ou mulheres em posições de poder sofreriam o mesmo nível de ataque. E não é o caso.
Historicamente, o Brasil tratou a primeira-dama como um papel decorativo. E aqui estamos falando de papéis demarcadamente de gênero, associando-as sempre ao cuidado e à caridade. Mas essa não é “só” uma questão de gênero. Essa é uma disputa política; uma disputa de poder; de classe; uma verdadeira guerrilha simbólico-cultural. Porque Janja rompeu o molde: ela atua como ruptura simbólica ao se posicionar politicamente. Em suas falas públicas, desafia a tradição que espera dela a docilidade e a neutralidade das mulheres “decorativas”. Seus gestos – como vestir um casaco palestino, rompe drasticamente com o lugar social esperado e o fato dela existir de forma ativa no espaço público, ameaça o status quo. A grande diferença é que Janja se posiciona política e culturalmente. Ela não está só ao lado de Lula, ela atua, opina, influencia.
Essa é também uma disputa de classe, política e de poder. Ao representar um Brasil mais popular, com suas roupas, seus gestos, suas falas, que carregam um certo código cultural, associado às universidades, aos movimentos sociais, ao feminismo, ela representa uma verdadeira ameaça aos que ocupam de forma elitista o poder. O fato dela ter voz e agenda própria é uma afronta aos “eleitos”. Eles não aceitam uma forte influência pública sem ter passado pelas urnas. Mas está claro o que está em jogo: quem tem legitimidade para participar do poder e lugares de mando?
Como disse o sábio “a comparação é a ladra da alegria”, mas ao contrário de Michelle Bolsonaro e Marcela Temer, que mantiveram uma atuação discreta, ligada a pautas religiosas, ou outras, que simbolizava o recato tradicional da primeira-dama, Janja redefine o papel e não deixa barato: descarta a filantropia silenciosa e se afirma como sujeito político ativo. E talvez seja esse o ressentimento inclusive da esquerda, que gostaria de manter a separação entre esfera pública e privada.
Não é apenas sobre ser mulher, é sobre uma presença que incomoda (esquerda e direita), ela que questiona normas antigas, que defende mudanças no radical da sociedade e se torna ícone das tensões políticas do país. E esse é exatamente o ponto.