Diziam os antigos, acerca daqueles que cultivavam um semblante taciturno, que haviam entrado no Antro de Trofônio. Tratava-se de uma caverna lateral presente no Oráculo de Delfos, uma passagem estreita, cuja entrada dependia da aceitação de um sacerdote e da coragem do iniciado. Após beber a água de duas fontes, uma representando o esquecimento e a outra a lembrança, o iniciado era levado para o fundo de uma gruta, de onde era retirado de cabeça para baixo. Todos que passavam por essa experiência e vislumbravam os conhecimentos advindos das visões dali resultantes adquiriam um ar melancólico e descrente.
Após visitar Trofônio e ser içado da gruta, o iniciado era posto no Trono da Memória, onde devia narrar as visões e conhecimentos adquiridos, para em seguida ser levado a um quarto, onde encontraria Boa Sorte e Bom Gênio, para só então poder recuperar a capacidade de sorrir.
Na tradição psicanalítica, o Antro de Trofônio é uma metáfora para o inconsciente e a tendência de mudar uma realidade passada para nos eximir de alguma culpa. Nestes casos, só a memória cura. Entrar na gruta é confrontar-se com os traumas e sombras do passado, e só ao emergir, após um processo de rememoração e compreensão, é possível alcançar a redenção e a alegria.

Em 2013, entramos no Antro de Trofônio. Naquela gruta, nos deparamos com um passado mal resolvido, que nos impedia de alcançar novas projeções. As manifestações de junho de 2013 foram um mergulho coletivo nessa caverna escura, uma tentativa de confrontar a história de um país marcado por desigualdades, corrupção e uma memória autoritária. Porém, o processo de cura exige mais do que a simples exposição das feridas; é preciso compreender e superar esse passado.
Os protestos de 2013 foram uma tentativa de criar espaços onde o anseio por mais justiça social e participação política pudesse ecoar livremente, mas foram rapidamente engolidos pelo poder simbólico impulsionado pelo poder econômico, nos grotões de grupos e algoritmos, em tenebrosas transações virtuais. Contudo, sem a construção de uma memória, as lembranças se dissolvem no ar, o aprendizado dessas zonas tende a desaparecer, e os saberes construídos de organização coletiva e horizontal serem perdidos, anos de sabedoria prática de autogestão em movimentos sociais abafados por uma direita reacionária e uma esquerda institucional que atuam a favor do esquecimento dessas revoltas.

O Antro de Trofônio, na psicanálise, representa essa necessidade de mergulhar no inconsciente coletivo, confrontar os traumas históricos e, através da memória, buscar a cura. A integração e perdão das sombras do passado é essencial para o desenvolvimento saudável do indivíduo e, por extensão, da sociedade. Sem essa rememoração e esse perdão, permanecemos presos em um ciclo de repetição, incapazes de nos guiar para alguma direção nova.

Em 2013, nossa sociedade vislumbrou um passado mal resolvido que sufocou as aspirações populares, mas preferimos esquecer e recalcar. Não haverá futuro que nos alegre enquanto não nos livrarmos desse passado. O passado que sufocou as aspirações de 2013 ainda nos atormenta. Enquanto não sentarmos no Trono da Memória e superarmos nosso passado autoritário e de eternas conciliações; nossa necessidade em eleger um grande conciliador, em como isso sufocou as jornadas de junho, em como as raízes dessa jornada não estavam dadas inicialmente nos grandes centros do Sudeste, em como Natal e outros centros tiverem um protagonismo esquecido e silenciado nas análises que se sucederam, enquanto o mesmo passado ressurgir como farsa, jamais encontraremos a Boa Sorte e o Bom Gênio. Jamais voltaremos a sorrir.
Rememorar para superar, superar para esquecer e prosseguir. A experiência de Trofônio nos mostra que o confronto com o passado é doloroso, mas necessário. O iniciado que emerge da gruta, tendo confrontado suas visões e memórias, é capaz de reintegrar-se à sociedade com uma nova perspectiva, mais leve e consciente.

Um viva à potência junina! Que os ensinamentos de Trofônio possam deixar gritar os que foram calados, para que essa memória possa ter paz e também as pessoas que as carregam, para que o país se encontre com a parte de si mesmo que tenta calar.
A fogueira junina ainda queima na sala, não adianta fingir que não a vemos.
Enquanto for preciso.
Nós não a esqueceremos!