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Para além da #RevoltadoBusão: ativismo na sociedade do espetáculo.

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Contexto

Há poucas décadas, os indivíduos eram meros espectadores, cuja tarefa consistia em “espectar”, ou seja, assistir e observar conteúdos. Suas escolhas se limitavam a receber informações de diferentes veículos de comunicação, integrando um universo restrito a alguns grandes veículos. As informações não eram compartilhadas por redes de pessoas, mas destinadas a núcleos dispersos que não necessariamente interagiam entre si (casa, vizinhança, trabalho, círculos de amizade). Isso resultava em indivíduos extremamente atomizados recebendo informações de maneira isolada, através da TV, jornais e revistas semanais, com pouca ou nenhuma abertura para o debate ou a participação direta do espectador no conteúdo veiculado.

Para motivar e controlar esses sujeitos isolados, a autoridade e a polícia tornaram-se secundárias. Bastava entretê-los, excitá-los, amedrontá-los e bombardeá-los com informações irrelevantes ou intencionalmente direcionadas. Os grandes veículos de informação, voluntariamente ou não, desempenhavam o papel do Estado, silenciando vozes dissonantes, despolitizando a população, ridicularizando movimentos sociais e deslegitimando protestos. Assim, as grandes causas políticas saíam das ruas e adentravam nos gabinetes, favorecendo o governo e garantindo os monopólios dos veículos.

Guy Debord, em seu livro “A Sociedade do Espetáculo”, argumenta que a vida moderna tornou-se uma representação contínua de imagens, onde o espetáculo se converte na principal forma de mediação das relações sociais. Esta sociedade do espetáculo transforma tudo em uma aparência, alienando os indivíduos de sua própria realidade. Com o advento das tecnologias digitais e da internet, o cenário de comunicação mudou drasticamente. A era da informação proporcionou não só um aumento exponencial na quantidade de dados disponíveis, mas também uma mudança na dinâmica de consumo e produção de conteúdo. Hoje, com a internet e as redes sociais, ainda somos indivíduos atomizados, mas conectados entre si, compartilhando e recebendo informações filtradas por nosso círculo de afinidade. Isso possibilita a reunião de vários indivíduos em torno de uma única questão, independentemente de fronteiras geográficas, culturais ou temporais. As informações passaram a habitar em nuvens virtuais, permitindo a troca de informações entre diversos grupos e segmentos da sociedade, de modo livre e instantâneo, sem intermediação ou moderação do governo, veículos de informação ou fatores familiares, religiosos ou culturais.

A internet forneceu as condições necessárias para a criação de meios alternativos de informação, capazes de rivalizar com os grandes veículos de comunicação de massa, trazendo à tona questões até então silenciadas. Oferecendo o espaço ideal para que essas questões fossem articuladas e debatidas em uma escala sem precedentes.

Nesse sentido, as imagens tornaram-se mais importantes que os conceitos. Uma foto ou uma caricatura tornaram-se mais eficazes do que a retórica de um discurso. A internet, ao possibilitar a desconstrução do discurso dos grandes veículos de comunicação por meio de imagens, tornou-se, no âmbito da opinião pública, o principal campo de atuação política, cuja principal arma é a imagem.

A imagem como discurso político

Vivemos hoje, mais do que em qualquer outro tempo, imersos na caverna platônica, acreditando apenas nas sombras que nos aparecem como imagens. Guy Debord, em “A Sociedade do Espetáculo”, argumenta que na sociedade contemporânea, as imagens substituem as relações diretas entre as pessoas, tornando-se a forma dominante de comunicação e controle social. Só é real o que é visível. Desenvolvemos um idealismo ingênuo que acredita que a imagem é a única forma de representação, substituindo cada vez mais o papel das palavras na representação do real. Estamos cegos com nossa própria imagem.

Imagem é poder; com uma única imagem pode-se derrubar um governo. Antes, esse poder era monopolizado pelos grandes veículos, agora, com a internet, tornou-se disponível a qualquer um com uma câmera amadora e uma conexão com a internet. A democratização na produção das imagens possibilitou que indivíduos militantes, atuando sozinhos ou em grupos, enfrentassem o monopólio dos grandes veículos de informação.

Os protestos que estamos testemunhando desde o ano passado em Natal são um exemplo claro de como a imagem se tornou um poderoso discurso político. Inicialmente motivados pelo aumento das tarifas de transporte público, os protestos rapidamente se transformaram em um movimento amplo contra a corrupção e a má gestão pública da prefeita Micarla de Souza, filha de um empresãrio da comunicação que fez carreira política através do poder simbólico de uma concessão pública de TV. Ao contrário do mostrado na TV, as imagens dos manifestantes nas ruas, das repressões policiais e dos atos de vandalismo espalharam-se rapidamente pelas redes sociais, mobilizando mais pessoas e intensificando o movimento.

Ao verem pessoas nas ruas, as pessoas passaram a ir para as ruas. Das imagens à ação. As imagens de guardas municipais intimidando manifestantes pacíficos chocaram a opinião pública e ganharam destaque nacional, influenciando outros movimentos. Essas imagens foram amplamente compartilhadas e serviram como um catalisador para aumentar a adesão ao movimento. O uso de celulares e redes sociais permitiu que cada indivíduo se tornasse um repórter, registrando e disseminando instantaneamente os eventos, sobretudo através do Twitter. Não é por acaso que os movimentos possuem # em seus nomes.

Os protestos mostraram que a visibilidade das injustiças através das imagens é um fator determinante para a adesão popular. As cenas de violência e repressão geraram uma onda de indignação e solidariedade, levando mais pessoas a se juntarem às manifestações. As imagens capturadas durante esses eventos estão moldando a percepção pública e criando uma narrativa poderosa que poderá influenciar futuras mobilizações sociais. Ao assistirem vídeos das manifestações as pessoas se sentem parte integrante daquele movimento e suas pautas, essas pessoas serão manifestantes em potencial, quando o movimento precisar de uma mobiliação maior.

Em uma época marcada pelas imagens, os movimentos sociais precisam se tornar audiovisuais. Uma legião de chargistas, fotógrafos e cinegrafistas amadores despejando conteúdo nas redes sociais é mais eficiente do que uma legião de cronistas e comentadores despejando conteúdo em blogs. Em nossa cidade, temos a oportunidade de construir uma alternativa ao modelo estereotipado de movimento social, de pichações e bandeiras, para performances e terrorismos poéticos, utilizando as imagens em benefício próprio.

Nossa civilização pensa por imagens, sendo assim, é importante pensar na consequência das imagens, não apenas dos atos. As imagens de bandeiras e entidades partidárias no #ForaMicarla e de depredações na #RevoltadoBusão prejudicaram mais esses movimentos do que qualquer matéria difamatória veiculada na imprensa – que não foram poucas.

Protestos exitosos, hoje em dia, exigem mais do que ações políticas; exigem ações estéticas. O discurso político torna-se cada vez mais um discurso imagético, interessado em passar uma imagem ao invés de um conceito. É preciso que se pense primeiro em qual imagem se quer passar, para, em seguida, definir quais atos se deve praticar.

Nenhum telejornal local veiculou as cenas das duas ocasiões em que o Bp Choque entrou em ação, e isso não foi por acaso. Imagens de repressão policial a um movimento relativamente pacífico são um ótimo catalisador de revoltas. As imagens que prevaleciam eram as de adolescentes encapuzados pichando e depredando patrimônio público e privado. Imagens desse tipo devem ser respondidas não com discursos inflamados ou atitudes hostis, mas com as imagens da repressão policial e das pessoas que tentavam conter tais integrantes, mostrando que se tratava de uma minoria.

A polícia assistiu, com bastante tranquilidade, sujeitos ainda desconhecidos queimarem um ônibus na Bernardo Vieira. Depois que o espetáculo do incêndio cessou e a imprensa se fartou com as imagens, a polícia passou a distribuir balas de borracha em quem não tinha nenhuma ligação com o ocorrido, prendendo de forma truculenta um suspeito apenas “porque estava correndo”. O espetáculo, dessa vez, acontecia longe das lentes. Nenhum veículo expressivo veiculou as imagens dos rostos ensanguentados daqueles que foram feridos, amplamente divulgadas nas redes sociais. Será que para uma imprensa livre essa não seria uma boa pauta?

Pergunto: com todas as imagens que a polícia diz ter recolhido, com a cúpula de inteligência da polícia investigando o caso, cadê os responsáveis? Falo não dos que tentaram, sem sucesso, atear fogo, mas daqueles que entraram no ônibus e, em segundos, atearam fogo nele. Desses, nenhuma TV ou jornal conseguiu captar uma imagem sequer – o que é, no mínimo, estranho. Já as imagens de adolescentes encapuzados colocando a mão na câmera ou pichando ônibus foram fartamente veiculadas.

A verba cada vez maior destinada à publicidade, tanto no âmbito municipal quanto no estadual, não busca apenas divulgar o trabalho do governo, mas acaba se convertendo em um meio lícito de destinar recursos públicos aos grandes veículos privados de informação no estado. O mesmo ocorre com blogs ou portais pouco expressivos que recebem gordos recursos para banners raquíticos. Assim, com fartos recursos publicitários, é bastante previsível que nossa imprensa reagiria aos acontecimentos da forma como reagiu. Faz-se necessário, aos manifestantes, a compreensão de que contrainformação não se combate com gritos de ordem ou cerceamento do trabalho da imprensa, mas com mais informação.

Quando a imprensa vociferou críticas contra a atitude de integrantes da #RevoltadoBusão, críticas cabíveis inclusive, faltou contextualizar, até por princípio jornalístico, a motivação das hostilidades de alguns integrantes com a imprensa, a saber, a relação duvidosa existente entre a nossa imprensa (impressa e audiovisual) com os grupos políticos locais.

Pergunto: o que são os taciturnos adolescentes mascarados, peritos em ameaçar câmeras, em comparação à relação espúria de veículos de informação – alguns são concessões públicas, vale ressaltar – com determinados grupos políticos no estado? É menor o pequeno que aplaude o grande.

Será que a nossa prefeita, atualmente com a pior aprovação da história do Brasil, conseguiria ter sido eleita sem que antes se tornasse uma espécie de Oprah Winfrey natalense? Pode uma concessão pública ser utilizada para produzir candidatos?

Enfim, a internet é uma arma indispensável para agregar indivíduos com pouco ou nenhum histórico de ativismo político. É importante que os movimentos que afloram na capital não apenas utilizem a rede para informar e recrutar esses indivíduos, mas também possibilitem os meios necessários para que eles se engajem e tenham voz dentro do movimento, quando e onde quiserem.

Temos hoje meios tecnológicos que nos permitem coordenar ações e cooptar forças em uma escala sem precedentes. A grande vitória de movimentos como o #ForaMicarla e a #RevoltadoBusão se deu pela utilização de tais meios para arregimentar colaboradores. Entretanto, tais movimentos foram tímidos em explorar até as últimas consequências o poder efetivo que tais recursos podem proporcionar. Para tanto, é preciso ir além das burocracias das comissões e plenárias, criando muito mais do que deliberando.

A batalha que não se vence nas ruas

Protestos exitosos, hoje em dia, exigem mais do que ações políticas; exigem ações estéticas. Os eventos que estamos testemunhando nas ruas de Natal revelam que os movimentos sociais precisam agir simbolicamente, e para isso precisam de uma nova estrutura de gestão, uma autogestão criativa na comunicação do movimento com a sociedade. O discurso político torna-se cada vez mais um discurso imagético, interessado em passar uma imagem ao invés de um conceito. É preciso que se pense primeiro em qual imagem se quer passar, para, em seguida, definir quais atos se deve praticar.

No calor dos acontecimentos que se desenrolam em Natal, observamos que a batalha travada nas ruas vai além do confronto físico; trata-se de uma batalha simbólica. Nenhum telejornal local veiculou as cenas das duas ocasiões em que o Bp Choque entrou em ação, e isso não foi por acaso. As imagens de repressão policial a um movimento relativamente pacífico tornaram-se um ótimo catalisador de revoltas, alimentando a indignação popular e ampliando o apoio às manifestações.

As imagens que prevaleciam eram as de adolescentes encapuzados pichando e depredando patrimônio público e privado. A estética do mascarado, do anarquista, representa o alvo ideal porque simboliza uma ruptura violenta contra a ordem estabelecida. Isso justifica a repressão das forças policiais sob o argumento de restabelecer a ordem. Para justificar as ações violentas é preciso ter as imagens de encapuzados para passar uma falsa sensação de equivalência. Assim, escondem a covardia dos policiais. Imagens desse tipo devem ser respondidas não com discursos inflamados ou atitudes hostis, mas com as imagens da repressão policial e das pessoas que tentavam conter tais integrantes, mostrando que se tratava de uma minoria.

Em meio ao caos urbano, a polícia assistiu, com bastante tranquilidade, sujeitos ainda desconhecidos queimarem um ônibus na Bernardo Vieira. Depois que o espetáculo do incêndio cessou e a imprensa se fartou com as imagens, a polícia passou a distribuir balas de borracha em quem não tinha nenhuma ligação com o ocorrido, prendendo de forma truculenta um suspeito apenas “porque estava correndo”. O espetáculo, dessa vez, acontecia longe das lentes. Nenhum veículo expressivo veiculou as imagens dos rostos ensanguentados daqueles que foram feridos, amplamente divulgadas nas redes sociais. Será que, para uma imprensa livre, essa não seria uma boa pauta?

Pergunto: com todas as imagens que a polícia diz ter recolhido, com a cúpula de inteligência da polícia investigando o caso, cadê os responsáveis? Falo não dos que tentaram, sem sucesso, atear fogo, mas daqueles que entraram no ônibus e, em segundos, atearam fogo nele. Desses, nenhuma TV ou jornal conseguiu captar uma imagem sequer – o que é, no mínimo, estranho. Já as imagens de adolescentes encapuzados colocando a mão na câmera ou pichando ônibus foram fartamente veiculadas.

A verba cada vez maior destinada à publicidade, tanto no âmbito municipal quanto no estadual, não busca apenas divulgar o trabalho do governo, mas acaba se convertendo em um meio lícito de destinar recursos públicos aos grandes veículos privados de informação no estado. O mesmo ocorre com blogs ou portais pouco expressivos que recebem gordos recursos para banners raquíticos. Assim, com fartos recursos publicitários, é bastante previsível que nossa imprensa reagiria aos acontecimentos da forma como reagiu. Faz-se necessário, aos manifestantes, a compreensão de que contrainformação não se combate com gritos de ordem ou cerceamento do trabalho da imprensa, mas com mais informação.

O desafio, portanto, está em construir uma narrativa alternativa que possa competir com a narrativa dominante dos grandes veículos, que possa cativar forças e emoções em nome de uma pauta comum. Essa narrativa não pode ser conceitual, baseada apenas em gritos de guerra; precisa ser simbólica, utilizando imagens, vídeos, fotos e artes. Assim, transformamos poder simbólico em poder político. Quando a imprensa vociferou críticas contra a atitude de integrantes da #RevoltadoBusão, críticas cabíveis inclusive, faltou contextualizar, até por princípio jornalístico, a motivação das hostilidades de alguns integrantes com a imprensa, a saber, a relação duvidosa existente entre a nossa imprensa (impressa e audiovisual) com os grupos políticos locais.

Pergunto: o que são os taciturnos adolescentes mascarados, peritos em ameaçar câmeras, em comparação à relação espúria de veículos de informação – alguns são concessões públicas, vale ressaltar – com determinados grupos políticos no estado? É menor o pequeno que aplaude o grande

Neste cenário, a luta pela narrativa é incessante e vital. Será que a nossa prefeita, atualmente com a pior aprovação da história do Brasil, conseguiria ter sido eleita sem que antes se tornasse uma espécie de Oprah Winfrey natalense? Pode uma concessão pública ser utilizada para produzir candidatos?

Enfim, a internet é uma arma indispensável para agregar indivíduos com pouco ou nenhum histórico de ativismo político. O poder de mobilização das redes sociais tem mostrado sua força, mas é necessário que os movimentos sociais compreendam a profundidade e as implicações de suas ações imagéticas. É importante que os movimentos que afloram na capital não apenas utilizem a rede para informar e recrutar esses indivíduos, mas também possibilitem os meios necessários para que eles se engajem e tenham voz dentro do movimento, quando e onde quiserem.

Temos hoje meios tecnológicos que nos permitem coordenar ações e cooptar forças em uma escala sem precedentes. A grande vitória de movimentos como o #ForaMicarla e a #RevoltadoBusão se deu pela utilização de tais meios para arregimentar colaboradores. Entretanto, tais movimentos foram tímidos em explorar até as últimas consequências o poder efetivo que tais recursos podem proporcionar. Para tanto, é preciso ir além das burocracias das comissões e plenárias, criando muito mais do que deliberando.

Para avançar de maneira efetiva, é crucial adotar estratégias comunicativas que conectem diversas redes e transformem indignação em ação coletiva. Os movimentos devem investir em plataformas digitais que facilitem a disseminação de informações e o engajamento das pessoas, promovendo a participação ativa e a coesão em torno dos objetivos comuns.

Além disso, é importante aplicar uma liderança distribuída, onde diferentes membros do movimento assumam papéis de liderança em contextos variados, promovendo uma gestão mais flexível e adaptável às mudanças e desafios. Isso é essencial para responder rapidamente às oportunidades e ameaças que surgem.

Por fim, deve-se fomentar uma cultura de aprendizado contínuo dentro dos movimentos. Movimentos que se veem como organizações de aprendizado são capazes de refletir sobre suas práticas, avaliar seus impactos e ajustar suas estratégias com base nas experiências adquiridas. Isso inclui investir na formação dos membros, no desenvolvimento de habilidades de comunicação e negociação, e na criação de espaços para a troca de conhecimentos e experiências.

Adotando essas estratégias, os movimentos sociais podem não apenas aumentar sua eficácia nas ruas, mas também consolidar sua presença e influência no cenário político, transformando o poder simbólico em poder político de maneira sustentável e duradoura.