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A “Crise” e a incompetência da Elite do Poder em Natal

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Há alguns anos vige em Natal uma inquietação partilhada. Muito embora, ela seja ainda pouco articulada.  Sobretudo nas redes sociais, em estratos mais jovens e educados da classe média, cresce um sentimento de injustiça e indignação frente aos poderes locais – governo, imprensa, empresários.

A indignação crescente dos natalenses contra os poderosos opõe de uma maneira cada vez mais clara e acirrada, uma oligarquia de políticos, empresários e seus bajuladores, por um lado, e um conjunto diferenciado e amplo de pessoas comuns, trabalhadores, profissionais liberais, estudantes e militantes, de outro.

Os desastres e a incompetência administrativos da prefeitura extrapolaram até a paciência dos mais conformistas dos cidadãos natalenses. Em certas camadas sociais, a oficiosa imprensa natalina é vista cada vez mais com maior desconfiança por seu parcialismo disfarçado, que a faz distorcer e enviesar a realidade com a mesma naturalidade com que se respira. Por último, a ganância e o abuso dos empresários-coronéis da cidade, que, em face de seus interesses e paixão pelo lucro rápido, tentam passar por cima de todo tipo de legislação, bom senso e, até mesmo, da vontade popular.

Esses três círculos – líderes políticos,  dirigentes empresários e imprensa – formam, em Natal, uma comunidade de interesses intimamente ligada entre si, e cuja ação, muitas vezes em bloco, visa de uma maneira ativa, direta ou indiretamente, influir decisivamente nos rumos da sociedade. Constituem, digamos, o que sociólogo Wright Mills em sua análise sobre a organização social – e a extrema concentração do poder – dos EUA, chamou de “elite do poder”. Na defesa e consecução de seus interesses, prestígio e riqueza, esta elite lança mão de seus instrumentos efetivos de poder e influência para preservar uma política de manutenção do status quo e de controle da sociedade. Não à toa que a emergência de novas  forças sociais, atores e movimentos sofra, de início, com fortes ataques de desqualificação e repressão – vide #ForaMicarla e a #RevoltadoBusão.

É lição básica de toda Sociologia do poder de que a dominação e a autoridade obtêm a obediência e a subordinação dos outros por meio de algo mais do que o temor e a coerção.

Somado aos meios externos que apoiam a dominação, Max Weber falava no papel das justificações internas para a legitimação e aceitação das imposições da autoridade e do poder. Pierre Bourdieu, sociólogo francês, escrevia sobre como o vigor da dominação dependia de uma espécie de alquimia simbólica que transformava a primeira, no coração e mente dos dominados, numa outra coisa; o poder em carisma, a submissão em afeto, a dívida em reciprocidade, etc..

O fundamento da dominação não se dá, portanto, apenas pela desigualdade de recursos de força e poder material. Conforme a interessantíssima investigação do sociólogo Barrington Moore sobre as bases sociais da revolta e indignação coletivas; senhores e servos, governantes e súditos, dominador e dominado estão unidos por um pacto de cumplicidades e tácitas obrigações mútuas, altamente envolvido em fatores emocionais e sociológicos responsáveis por equilibrar em alguma medida a relação. Para manter os subordinados como tais, a ação dos poderosos deve obedecer alguns limites e obrigações para com o bem-estar físico e moral dos primeiros. O desmantelamento dos serviços públicos básicos, por exemplo, afrontam tanto a um como a outro, causando forte indignação, ainda que de maneira seletiva e circunstancial.

Evidentemente, esses limites são renegociados e se tornam bastante contingentes e frágeis em sociedades cuja ação dos poderes é acompanhada, fiscalizada e avaliada com mais interesse, quer por instituições voltadas para tal fim, pela sociedade civil ou por indivíduos empunhando smartfones e tablets interruptamente conectados à internet e às redes sociais. Na verdade, em tais contextos, a aceitação e legitimação do poder se torna uma tarefa cada vez mais difícil.

Parece ser, em parte, diga-se, esses novos limites que a elite do poder da cidade excedeu inadvertidamente ou não soube se adaptar; as velhas estratégias de legitimação do poder não servem mais como antes ou não são suficientes. Daí a indignação, contida em alguns, explícita e praticada em outros, que parece ter tomado conta da cidade. O argumento pode aparentar ser conservador na medida em que coloca em tela a ideia segunda qual a atual “crise” dos poderes locais em se legitimar e os comportamentos revoltosos recentes são fruto do fracasso, inaptidão e abuso dos próprios dominadores em manter a dominação social; melhor seria proclamar a tomada de consciência dos subordinados acerca de sua condição.

Não, não se trata de excluir ou minimizar o protagonismo, a força social e a energia política rebelde dos movimentos e pessoas insurgentes. Trata-se tão somente de mostrar que os pretensiosos “Donos do poder” em Natal tem se mostrado incompetentes até para manter o seu próprio status quo. Entretanto, convém não subestimar sua capacidade de reagir por conta de tal constatação. A diminuição ou crise de poder de uma classe ou grupo não implica necessariamente no crescimento do poder de outras classes e grupos. Por isso, é prudente manter-se alerta, e agir para aproveitar as fraquezas momentâneas dos “de cima” para, assim, trazer à luz as contradições e conflitos que tal elite do poder tenta, à todo custo, encobrir, mesmo quando debilitada.