Como já veiculado aqui na Carta Potiguar, o Tribunal Superior Eleitoral está promovendo uma campanha publicitária cujo slogan principal é: “Valorize seu voto. Vote pela sua cidade. Vote limpo”, eu, particularmente, ao contrário do texto veiculado, encaro que o conteúdo da campanha vai muito além de “defender a honestidade como projeto político”. Encaro sim, como sendo uma tentativa de conscientizar a população para a importância do voto consciente, da importância em conhecer de fato o candidato, de combater a ainda tão comum compra de votos.
“Votar sujo”, a meu ver, também se refere a quem vende, ou desperdiça o seu voto, pelos mais diferentes motivos: financeiros, familiares, religiosos, ou até mesmo para quem vota no candidato mais “engraçado” por simples preguiça ou desmotivação em analisar, pesquisar e ponderar as propostas e os projetos políticos, ou ainda, para quem usa o seu voto como se comprasse um produto: “vou votar em fulano, a musiquinha dele é a melhor, há várias banderinhas dele na rua, seu comercial de TV é bem feito”.
Então, nesse sentido, acho válida essa campanha, uma iniciativa louvável e necessária em uma sociedade totalmente despolitizada. Portanto, discordo que o tema central da campanha seja o de promover, nos eleitores, unicamente, o julgamento da honestidade ou não dos candidatos, mas, sim, promover uma cultura crítica e “consciente” no eleitorado. Ou seja, em poucas palavras, não seria uma campanha que defende o “vote nos honestos”, mas, sim, o “seja honesto com seu voto”.
É bem verdade que a motivação da campanha “Voto limpo” se remete necessariamente a lei da ficha limpa, não há problema algum nisso, uma vez que a ficha limpa, embora seja uma importante vitória da sociedade civil, fruto quase que exclusivamente da pressão popular, ainda é, pasmem, desconhecida do grande público, segundo pesquisas recentes. Além do fato dessa ser a primeira campanha eleitoral onde a dita lei está, de fato, em vigor, portanto, uma campanha de esclarecimento só vem a ajudar.
A lei da ficha da limpa claramente entende que a maioria dos brasileiros não possui informação suficiente para evitar que candidatos, que cometeram crimes de forma notória, vençam as eleições. Logo, a lei precisa impedir a candidatura daqueles candidatos que julga inapropriado para um cargo público. A intenção aqui é dar um auxílio legal, através de uma triagem, para evitar que o eleitor desinformado eleja tais candidatos. E como remedia-se essa situação à longo prazo? Bingo! com informação, portanto, campanhas como essa devem ocorrer sim.
O que é risível nela é exatamente o fato dela estar sendo patrocinada e promovida pela própria justiça eleitoral, por quê? Ora, se é a própria justiça eleitoral, amparada na lei da ficha limpa, que deveria julgar os candidatos “ficha limpa” ou “ficha suja” e impugnar, ou não, o registro de suas respectivas candidaturas, como ela própria promove uma campanha para que não se vote em fichas sujas? O índice de candidatos com graves processos administrativos, ou mesmo criminais, que recorrem e ganham na justiça eleitoral o registro de suas candidaturas não é pequeno. Aqui mesmo em nossa cidade temos candidatos condenados na Operação Impacto que disputam na maior cara de pau a eleição, quando não colocam parentes como candidatos.
Essa sim seria, a meu ver, a maior contradição na dita campanha publicitária, não o seu conteúdo, mas quem a promove. Seria mais correto, e sincero, com o eleitor, que a justiça eleitoral imbuído do espírito cristão de mea culpa veiculasse a seguinte campanha:
“Bem nós não barramos todos os corruptos e fichas sujas, sabe como é né caro eleitor? Tem toda aquela coisa do benefício da dúvida, presunção de inocência, recursos que se estendem ad infinitum, morosidade do processo e por ai vai. Se o legislativo não se move para melhorar o texto, então não há nada que possamos fazer, culpem vossos digníssimos legisladores, aqueles mesmos de quem vocês já não se lembra mais, eles que retiraram do texto a condenação em primeira instância. Então, diante desse quadro de impunidade, ou de falta de vontade, passamos a bola para você, caro eleitor, vai que é tua! Faça o favor de fazer nosso trabalho e não votar naqueles que deveríamos impedir de se candidatar, sejam aquilos que a própria lei diz que não são: informados. Confiamos na sua histórica capacidade de discernimento(?), grato, Justiça Eleitoral”.
Mesmo assim, ainda ficaria na dúvida se uma campanha nesse formato seria menos sarcástica do que a do comercial.